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cristina dangerfield-vogt

Iniciado em Israel, foi o meu primeiro blog, e tem alguns inéditos não publicados ainda em livro, além de excertos do meu livro - Um Ano em Telavive - Foca o quotidiano israelita, viagens pela Palestina, notícias actuais,..

cristina dangerfield-vogt

Iniciado em Israel, foi o meu primeiro blog, e tem alguns inéditos não publicados ainda em livro, além de excertos do meu livro - Um Ano em Telavive - Foca o quotidiano israelita, viagens pela Palestina, notícias actuais,..

Sayed Kashua leaving Israel

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/20/sayed-kashua-why-i-have-to-leave-israel

 

Sayed Kashua, Palestinian writer and columnist in the liberal Israeli newspaper Haaretz, is leaving the country with his family for not being able to reconcile the unreconcilable...his Palestinian identity within the Jewish state  - Israel...why? Well, his daily life is made impossible by his origins and increase and intensification of threats to his family - for more information read the link to the The Guardian above...

 

And my text in the original script of my book "Um Ano em Telavive" where I mentioned Sayed Kashua and the situation in Israel, written between 2007-2008, in Portuguese

 

beginning of quote from "UM ANO EM TELAVIVE"

 

02.03.2008,     “Tel Aviv Stock Exchange slumps amid violence in south”

“Palestinians riot in Jerusalem area in wake of Gaza fighting”

“Pope appeals for unconditional end” to Gaza violence.

                        “EU condemns `disproportionate` use of force by IDF in Gaza”

– in Ha’aretz.

 

 

Novamente um dia bonito e solarengo, as temperaturas a subir não só meteorologicamente como meteoricamente, apetece-me pegar na bicicleta e ir para a praia e deitar-me na areia fina; as fragrâncias das flores entram pelas janelas abertas, afinal a Páscoa e o Purim estão à porta, também no ar as ameaças crescentes de todos os lados, o uso desproporcionado da força parece não ter limites, e os quassams - as impotentes armas dos pobres, a provocarem a resposta das sofisticadas armas israelitas e dos seus Apaches, que nas suas incursões em Gaza, acertam nos alvos com precisão, mas ainda não são suficientemente precisas para poupar os inocentes civis. A chamada 5ª coluna, os árabes deste país, que não fugiram ou foram expulsos, entrou em ebulição e começou a manifestar-se, até agora, pacificamente, um pouco por todo o país. Esta é uma tentativa de seguir os ensinamentos de Mahatma Ghandi no Médio Oriente, que mediante resistência passiva acabou finalmente com o império britânico na Índia, mas que resultou primeiro no massacre de Amritsar, quando os oficiais britânicos deram ordem de disparar sobre os civis: homens, mulheres e crianças que se manifestavam pacificamente naquela cidade em 1913. A Cisjordânia agita-se perigosamente, e o presidente Abbas acabou de suspender todos os contactos com o governo israelita: se a guerra ainda não começou oficialmente – a 3ª Intifada estará prestes a rebentar, dizem os pessimistas!

 

Do quarto do meu filho, sai uma enorme barulheira guerreira potenciada por colunas de som maiores do que ele, oiço as vozes de tenor dos oficiais que ordenam em cânone “headshot”, enquanto o meu filho e os amigos, jogando on-line, alheados dos perigosos jogos reais, se entretêm a disparar em guerras com feridos e mortos virtuais. Por enquanto, os rockets ainda não alcançam TA, mas vive-se uma normalidade intranquila.

 

Em Israel há vários grupos tanto de árabes como de judeus empenhados na luta pela paz entre os dois povos, porém a maioria da população de ambos os lados é extremamente ignorante dos outros. Sayed Kashua, um humorista e escritor israelita árabe de Tira, autor do guião da comédia televisiva Avoda Aravit – trabalho árabe, que tem tido um enorme sucesso entre os judeus, mas é visto mais criticamente pelos árabes, sugeria há algum tempo que este desconhecimento dos outros poderia e deveria ser superado. Ele dizia que se os árabes lessem os livros de Kertesz, Primo Levi, Appelfeld e Bashevis Singer sobre histórias pessoais nos tempos das perseguições anti-semitas na Europa, isso seria muito mais informativo e importante do que todos os livros históricos usados nas escolas e do que uma visita ao museu Yad Vashem – o museu do holocausto em Jerusalém, juntos. E, reconhece que eles - os árabes - tinham sido demasiado simplistas na sua incompreensão e recusa em aceitar os judeus fugidos. Ele perguntava-se, quando chegaria a altura de os árabes reconhecerem o direito de retorno dos judeus e a dos judeus aceitarem o direito de existência dos árabes em Israel. O artigo continuava, relatando um episódio ilustrador da atitude quotidiana neste país: um dia quando conduzia a sua filha à escola judeo-árabe como era habitual, deparou com uns rapazes dentro de um automóvel parado ao lado dele que pareciam perdidos e lhe perguntaram o caminho para o Monte Escopos. Ele baixou o vidro e informou-os, amável como todos os orientais, e no fim perguntaram-lhe que música era aquela que ele ouvia no carro – é a cantora Fayrouz (1) – respondeu, e antes de lhes poder perguntar se gostavam, sentiu escorrer-lhe um escarro pela face! (Tinham-lhe cuspido o seu ódio com desprezo...)

 

(1) uma conhecida cantora libanesa, considerada como a embaixadora mundial dos árabes entre as estrelas.

 

Atitudes de discriminação são correntes, apesar de este povo ser constituído por pessoas vindas de mais de 100 países diferentes.

 

Na última aula da Ulpan, vivi uma situação de conteúdo racista surpreendente; o tema em discussão era a violência na sociedade israelita, relativizando-a comparativamente a outros países, acabou-se a falar nos árabes, já nem sei a que propósito, geralmente evitamos assuntos polémicos de cariz político ou politicizante nas nossas aulas para não provocar animosidades, afinal estamos ali por interesses linguísticos e não outros; quando de repente a conversa mudou de tom e os meus colegas judeus da diáspora começaram numa incrível diatribe contra os árabes, seus conterrâneos, acusando-os de todos os pecados deste mundo, como se nunca tivesse existido nem o IDF, nem os muros da vergonha, nem a Naqba, nem a Máfia russa em Israel. Eu e os outros, não judeus, em silêncio absoluto e constrangido, resistindo aos nossos instintos de expressar opiniões próprias em democracia para não estragar o ambiente da turma em que ficaremos mais uns cinco meses, se a situação não se deteriorar num guerra que abranja todo o país e os expatriados forem aconselhados a sair.

 

No caso de guerra, todos os nossos novos amigos seriam chamados ao activo, porque são todos reservistas do exército, eles e elas!

 

Aproveitei a oportunidade para perguntar ao meu colega espanhol diplomata com é que avaliava a situação. Segundo ele, não temos de nos preocupar, porque só teremos de sair daqui, se os katiyuskas começarem a cair em TA, ou seja, apesar de Ashkelon ficar a apenas meia hora de automóvel, não há razões para nos preocuparmos antes, durante e depois, porque se for necessário, logo o saberemos - porém, desaconselhou-me de visitar o porto antigo de Ashkelon!

 

 

 

4.03.2008, “UN's Ban: Israel says Hezbollah has 30,000 rockets in S. Lebanon”

“Clashes erupt as IDF vehicles enter south Gaza” – in Ha’aretz.

 

Acordada pelo meu despertador dos últimos dias: os pássaros que todas as manhãs voam para os ramos da árvore que tamborilam leves nos vidros da janela, se regozijam com a primavera e se cortejam em duetos múltiplos, olho e vejo um céu azul forte que me faz querer saltar da cama para fora cheia de vitalidade e desfrutar ao máximo do novo dia.

 

Já prontos e ainda em correria matinal saímos fazendo os habituais slaloms pelo passeio sem chocar ou aterrar em nenhum dos obstáculos, quando quase caímos em cima de uns cãezinhos presos por trelas agarradas pela na mão insegura de uma senhora, que com a outra mão levo o rádio ao ouvido, escutando as notícias aos berros... distingo as palavras: Ashekon, Gaza, Hizbulah. Esta senhora que encontro todos os dias de cigarro e rédeas na mão, parece hoje segurar as rédeas dos acontecimentos pelo diapasão sonoro, prescindindo do seu calmo prazer quotidiano.

 

Mas como me dizia o Dave ontem - Ashkekon é longe!...as preocupações são dos ashkelonenses!

 

Perto da tabacaria, onde a revista Bellona, cuja capa tem sempre uma mulher nua em grande plano, ocupa todos os dias o lugar de honra no escaparate, encontro, diariamente, uma mãe com o filho, também eles à espera da carrinha do colégio. Há sete meses que nos vemos à mesma hora todos os dias; desde o inicial acenar de cabeça num gesto de reconhecimento mútuo do ritual diário paralelo, progredindo para o boker tov e mais tarde para um shalom, mais informal, aproximou-se hoje com um sorriso e falou-me pela primeira vez directamente. Já me disseram que quando a situação se deteriora se regista uma maior aproximação dos israelitas entre si, e não sei se terá sido o resultado dos acontecimentos dos últimos dias ou se o prazo de aproximação humana socialmente aceite estava cumprido, e por isso me dirigia agora a palavra mais directamente. Estes códigos comportamentais variam muito de país para país. Enfim, conversámos um pouco. A pergunta da praxe, se somos olim hadashim ou diplomatas, e o grande sorriso de aprovação ao falar-se na construção do Metro. Fiquei a saber que o filho frequenta uma escola oficial no centro de TA para crianças super dotadas, cujas carrinhas recolhem os alunos que moram na grande TA e que ministra um ensino especial e diferenciado. Enquanto, nas outras escolas os miúdos acabam as aulas às 13.30 horas, esta escola especial tem aulas até às 14.30 horas. Os israelitas investem muito em tecnologias de ponta e, de certa forma, estas crianças poderão vir a ser uma tecnologia de ponta do país, e são certamente um importante investimento para o futuro de Israel.

 

Se este país não estivesse constantemente em guerra, seria a Suíça do Médio Oriente, contudo, foi este estado permanente de conflito que incentivou a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias de guerra avançadas, como a tecnologia nanu e outras, que lhes permite equilibrar a balança de pagamentos com as exportações, para além de elemento dissuasor dos inimigos.

 

 

 

5.03.2008,       “MI: Iran arming Hezbollah with missiles sent via Turkey” 

“Thousands protest IDF Gaza offensive in Umm al-Fahm” – in Ha’aretz

 

 

                                                                                                                          

Está um tempo tão fabuloso que vesti um vestido de verão e calcei umas sandálias e fui às compras com uma amiga na rua Dizengof, para aproveitar os últimos saldos de inverno, que começaram há dois meses, já que poucos se lembram de planear agora o inverno seguinte.

 

Na montra de uma das lojas, vimos uns casacos de inverno retro giríssimos, de um estilista telavivense. Havia roupas tão engraçadas e originais que resolvemos abrir os cordões à bolsa e gastar o dinheiro que os nossos queridos maridos ganham mas não têm tempo de gastar – o que fariam eles sem nós! A simpatia do estilista foi subindo na razão directa das roupas empilhadas no balcão, numa euforia imparável que ameaçava empobrecer irremediavelmente as contas bancárias das esforçadas caras metade. Paga a conta, saímos dobradas pelo peso da culpa e continuámos a ver as montras. Entrámos na livraria Steimatzky, o equivalente à nossa Bertrand em termos de tradição, mas tão jovem como o estado de Israel, à procura dos livros de Sayed Kashua, o escritor que mencionei acima. Fiquei hesitante, já que, depois da experiência dele com a música de Fayrouz, eu não tinha bem a certeza como o meu pedido iria ser recebido. Decidi por uma questão de táctica pedir primeiro o livro “Beaufort” de Ron Leshem, um autor judeu, para criar uma atmosfera mais receptiva ao meu pedido posterior. O livro retrata a guerra do ponto de vista de um soldado do IDF, estacionado num posto no sul do Líbano, nos últimos momentos da presença de Israel naquele país. O livro foi a base de um filme homónimo.

 

Dirigi-me à empregada da livraria armada com o Beaufort e pedi-lhe “Dancing Arabs” e “Let it be morning” de Sayed Kashua. Olhou-me sem simpatia, e mandou-me procurá-los na estante por autores, em K. Não o encontrei, tive que voltar à mal-humorada rapariga, que verificou no computador se o tinham em stock – sim, e estavam ambos na livraria, mas não nas estantes. Obviamente, ou ela não tinha grande simpatia nem pelo autor nem por quem comprasse os seus livros, ou então era uma destas empregadas extremamente motivadas para os intervalos do café. De posse dos livros, ainda pensei num momento de optimismo irreflectido ir até ao parque Ha’yarkon, procurar o lugar de uma das aldeias árabes desaparecidas, embora só me lembrasse de ver placas honrando a memória do Haganah – a organização terrorista sionista que lutou contra os ingleses, e sentar-me à sombra de uma árvore a ler Sayed Kashua e ouvir os passarinhos, quando depois de reflectir, pensei ser mais seguro lê-lo na privacidade da minha sala iluminada e aquecida pelo mesmo sol que entra pelas vidraças das portas de correr.

 

Ao fim de tantas horas de compras, deu-nos uma fome e uma sede terríveis e resolvemos entrar no café Gotsa, um café da moda na Dizengof. A entrada num café em local central em TA é acompanhada de vários rituais: primeiro obstáculo a ultrapassar é o segurança, e carregadas como estamos com os vários sacos de compras, é também demorado, para além disso a minha amiga é africana; depois faz-se uma espécie de registo com a funcionária na caixa e espera-se que ela indique uma mesa – nada de iniciativas pessoais que possam parecer suspeitas - como a minha amiga é alérgica ao sol e sofremos ambas da paranóia local, que obviamente se desenvolveu nesta zona escaldante do mundo, não queríamos uma mesa vaga qualquer, mas sim uma à sombra e longe da exposta esplanada, o que não era assim tão fácil porque estávamos na hora do almoço. Finalmente, vagou uma mesa no lugar que pensámos ser o local mais seguro do café; ao lado uma mesa com duas senhoras idosas e a respectiva empregada filipina; as senhoras não conseguiam tirar os olhos da minha amiga nem fechar as bocas espantadas onde se via os restos da última garfada; de facto, ela era a única africana no café, uma estátua de ébano elegantemente vestida, de cabelos longos e brilhantes, entrançados em finas tranças e uma cara sorridente. Os únicos africanos que tínhamos visto na Dizengof, eram os refugiados de olhos vagos e sapatos acalcanhados. Recebemos várias ementas, que rapidamente descartámos, e escolhemos uma salada verde e uma água lisa, perante o olhar incrédulo da empregada, e ainda tivemos o descaramento de pedir um cesto de pão para acompanhar; obviamente tivemos de pedir o pão várias vezes porque a empregada não estava de acordo com a parcimónia da nossa refeição. E quando nos queríamos vingar e não lhe dar os 10 por cento da praxe, já ela nos trazia o troco deduzido da percentagem “obrigatória”. Cá fora a minha amiga confessou-me que passou o tempo aterrada e em alerta a ver se via algum rapaz de mochila suspeita entrar no café! Então e as mulheres suicidas – perguntei-lhe eu, também vêm de mochila? Saímos ilesas do café, dispostas a repetir a experiência.

 

End of quotation from "UM ANO EM TELAVIVE" (my book about Israel)

All Text and Photos protected by registered copyright © June 2008 written by Cristina Vogt-da Silva (aka cristina dangerfield-vogt)

 

 

 

 

 

 

 

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