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cristina dangerfield-vogt

Iniciado em Israel, foi o meu primeiro blog, e tem alguns inéditos não publicados ainda em livro, além de excertos do meu livro - Um Ano em Telavive - Foca o quotidiano israelita, viagens pela Palestina, notícias actuais,..

cristina dangerfield-vogt

Iniciado em Israel, foi o meu primeiro blog, e tem alguns inéditos não publicados ainda em livro, além de excertos do meu livro - Um Ano em Telavive - Foca o quotidiano israelita, viagens pela Palestina, notícias actuais,..

Ultra-ortodoxos: Gineceus e Androceus

 


 



Autocarro com separação de sexos em Jerusalém


copyright © 2009 cristina vogt-da silva (pseudónimo de cristina dangerfield-vogt)


 


Extracto do meu livro "Um Ano em Telavive" na versão original e não publicada e fotografia tirada com "perigo de vida"!


 


«A pé até, e por, Bnei Braque


 


 Telavive-Jaffo está rodeada por cidades satélites. Ou seja a cidade de Telavive tem o seu núcleo e à sua volta foram crescendo outras cidades, que têm autarquia própria, mas cujas fronteiras se diluíram, deixando de existir uma separação visível entre si. Bnei Braque é uma delas e é também a cidade onde vivem os vários tipos de judeus ultra-ortodoxos; nela predominam os haredim (teologicamente os mais conservadores), havendo também alguns hasidim, lubavitch, etc., tal como, inter alia, Mea Shearim em Jerusalém. Bnei Braque foi fundada em 1924, adquiriu o estatuto de cidade em 1949, passando a ser haredi no início dos anos 50 quando os rebbes hasídicos e os seus seguidores abandonaram Telavive e tem, actualmente, uma população de 150.000 habitantes.


 


Decidi descobrir Bnei Braque para me ver livre de papões e ver com os meus próprios olhos como é, e como são as suas gentes. Parti a pé do centro norte porque queria presenciar directa e gradualmente as diferenças entre o centro e aquela zona periférica. Passo a ponte sobre a auto-estrada Ayalon, construída ao longo do rio com o mesmo nome – que nesta altura do ano é apenas um fio de água nauseabundo, em direcção a Ramat Gan, uma cidade residencial, com algumas zonas mais luxuosas e, sobretudo, muita vegetação e árvores.


 


Fui perguntando em que direcção ficava Bnei Braque, já que no meu mapa, o plano detalhado do centro de TA estava justaposto exactamente sobre aquele bairro/cidade – sem dúvida uma táctica de desorientação das hordas de turistas orquestrada pelos rebbes; olhares de incompreensão e estranheza recompensaram a minha pergunta, sucedidos por espanto ao verem numa mão a máquina fotográfica e na outra o dito desorientador e incompleto mapa. Parecia-me que caminhava para uma desconhecida atracção turística.


 


Andei 45 minutos pela Jabotinski Rehov, uma artéria da cidade que atravessa várias cidades/bairros e que funciona como um corte segmentado dando-nos uma visão realista da estrutura social daqueles e que nos prepara gradualmente para o que está para vir. A meio caminho sobressaem no cinzento da rua os lábios rubros e as unhas pintadas de escarlate ou com desenhos arrojados das pálidas e oxigenadas eslavas, equilibrando-se em sandálias muito altas, com os pés tolhidos por sonhos de pé pequeno como Cinderela, ouvindo-se muito o russo. Patente, o decréscimo do poder de compra à medida que me aproximo de Bnei Braque.


 


Já se vêem as primeiras ortodoxas trajando vestes longas de cores sombrias e chapéus pequenos e redondos ou de perucas sem diversidade empurrando carrinhos de bebé. Tinha vestido, eu também, um vestido midi, pelo meio da perna, castanho, mas como a temperatura ainda rondava os 30 graus, tinha enfiado uns sapatos fechados e castanhos, umas meias e uma blusa de mangas compridas também da mesma cor no saco para me camuflar apenas quando me aproximasse de Bnei Braque. À saída de casa tinha encontrado uma vizinha que me tinha perguntado onde eu ia vestida daquela maneira com aquele calor! – a Bnei Braque, disse-lhe.


O que é vai lá fazer? É um sítio horrível; sujo, pobre, com crianças a correr por todos os lados que se atravessam à frente dos automóveis, confiando cegamente num destino traçado sem desvios de livre-arbítrio!


 


De facto, e segundo as estatísticas, o bairro judeu mais pobre do país!


 


Sento-me num banco corrido à beira do cruzamento poeirento que dá acesso ao dito bairro, e quase gaseada pelos escapes dos automóveis que impacientemente aceleravam em seco frente ao vermelho dos semáforos - como se ninguém se atrevesse, ou quisesse, ficar mais de uns segundos no limiar daquele mundo estranho, visto o resto da minha roupa ortodoxa que tirara do saco, perante o ar divertido de um condutor parado no cruzamento da rua Jabotinski com a rua Rabin Akkiva, a qual atravessa este bairro religioso e é a sua Baixa.


 


Entro na Rabin Akkiva Rehov, tentando descortinar se a divisão de sexos é só para certos autocarros dos haredim ou se também se aplica aos passeios desta artéria.


 


Inacreditável – sinto-me como se tivesse viajado na máquina do tempo e recuado ao séc. XIX. A rua movimentada e buliçosa com personagens de outra época: homens de vestes negras compridas e elegantes chapéus pretos de abas largas saem e entram nos bancos e nas lojas, ou conversam em grupos nas esquinas; mulheres de vestes sombrias e longas, com os cabelos cobertos por perucas e chapéus, turbantes e lenços variados em cores sóbrias empurram carrinhos de criança, levando pela mão livre outra criança, que por sua vez dá a mãozinha a outra criança formando filas indianas de cinco, seis, sete crianças, todas vestidas de preto, os miúdos com dois caracóis compridos de cada lado das orelhas e uma kipa preta no alto da cabeça. Parece a Baixa lisboeta à hora de ponta das fotografias sépia – sem os carros antigos e as americanas puxadas por cavalos – traídas pelos automóveis modernos coloridos que nos relembram estarmos no séc. XXI!


 


Ao longo de toda esta rua, sucedem-se as montras de pequenas lojas super interessantes: há lojas de perucas com cabelos de cores e corte clássicos e lojas “cosméticas” onde elas são fixadas ao cabelo natural; chapelarias que exibem nas suas montras uma variedade múltipla e elegante de chapéus e turbantes – que são apenas uma pequeníssima amostra do seu interior forrado com prateleiras de alto a baixo, com uma quantidade inimaginável de chapéus e turbantes dispostos artisticamente, ou empilhados uns nos outros consoante os tamanhos, multiplicados por espelhos infinitamente - reflectindo uma diversidade e profusão que parece querer fazer ironia à uniformidade – requisito desta sociedade ortodoxa e ultra – que aos nossos olhos se apresenta descolorida e uniforme; as mulheres cobrem os cabelos para não tentarem os homens – mas estes chapéus e turbantes são irresistíveis; não faltam as boutiques de roupas atraentes, embora clássicas e sombrias, elegantemente cortadas, em tecidos finos e brilhantes, veludos, tafetás, sedas, ornadas com palhetas à antiga; sapatarias com sapatos cómodos mas variados em cores discretas para mulheres; as sapatarias de homens com sapatos pretos de atacadores de modelos idênticos; camisarias de homem com camisas brancas impecavelmente alinhadas e gravatas clássicas; uma loja de tecidos e panos variados, arrumados ordenadamente em prateleiras, onde se vê o empregado ultra-ortodoxo brandir o metro de madeira antiquado como uma varinha mágica que transformará todos aqueles rolos de tecidos em belos vestidos para princesas ultra-ortodoxas; as lojas com fileiras de elegantes fatos pretos para homem de modelos variados de acordo com o tipo de ortodoxia.


 


Existem também livrarias de livros religiosos, com bonitas encadernações de pele vermelha, verde escura, castanha, preta em que se destacam letras hebraicas douradas; místicos e cheios de segredos, dispostos em prateleiras poeirentas – gostaria de entrar numa, mas lá dentro vejo apenas estranhos homens pálidos de cabeças cobertas com os vários tipos de chapéus e kipas conversando – por detrás do balcão sobressai o dono da loja pelas suas compridas barbas brancas que lembra um sábio ou o Dumbledore do Harry Potter.


 


Outras lojas têm dispostos pergaminhos e objectos sacros em prata e estanho que me parecem misteriosos, lá dentro sempre aqueles velhinhos de barbas brancas e compridas exalando uma sabedoria centenária e, mesmo, milenária.


 


Muitas lojas de música ortodoxa com os seus vários ícones apresentados nos posters expostos nas suas vitrinas – novamente apenas com clientela masculina.


 


Não vi lojas unisexo, mas alguns homens acompanham as suas mulheres nas compras, mantendo-se de pé quando elas se sentam em atitude antiga e respeitosa. As pessoas falam baixo – não se houve gritaria. Parece haver muito tempo, uma vivência ao ralenti – a vida moderna desacelerada por câmara lenta - ninguém se apressa, vive-se num tempo antigo.


 


Alguns miúdos saem em grupo das escolas ortodoxas e das yeshivas  - escolas religiosas, vestidos com uma elegância de antanho.


 


Tiro a máquina fotográfica do saco - tenho que tirar fotografias, apanhar esta atmosfera assíncrona – mas não me sinto à vontade. Sou a única estrangeira cristã que por aqui se passeia – sinto que o tenho escrito na testa, apesar do meu disfarce. Tento apanhar uns miúdos que passeiam de mão dada, com aqueles caracóis sacudidos pelos passos curtos de crianças bem comportadas, a kipa preta no alto da cabeça fazendo-os parecer pequenos adultos – tiro a máquina sentindo-me culpada por querer apanhar inocentes – já os tenho na mira da objectiva, clico; eles notam e tentam escapar-se do meu quadrado no último momento, feridos no seu orgulho, já cientes que as fotografias lhes roubam a alma! Reagem como bichos-do-mato e não como crianças normais.


 


Começo a sentir que só é possível descrever este bairro cénico escrevendo, e tento gravar na memória todos os detalhes desta rua presente vivendo no passado. Decido tirar fotografias às lojas; talvez com sorte apanhe algumas pessoas ou os seus involuntários reflexos ou apenas as suas fugidias sombras projectadas nos passeios – não se pode tirar a alma a reflexões nem aprisionar sombras desprovidas dela. Um pouco à frente uma loja com gravuras de rabinos de outros séculos e outras paragens, ao lado um letreiro encimando uma escadaria que fotografo. Um ortodoxo de chapéu preto e, relativamente jovem, dirige-se-me – fico receosa – faz-me um sorriso branco, descobrindo uns dentes com sinais de descoloração, mas pergunta-me apenas se sou da televisão. Não fala inglês e o meu hebraico ainda é incipiente – explico-lhe o que faço e digo-lhe que gostaria de fotografar as crianças que passam na rua. Fico a saber que não é possível e, assim, ou as tiro à socapa mostrando a minha tenacidade – correndo o risco de ser surpreendida pelos soturnos e “tolerantes” senhores da “Modesty Guard”, ou escolho o caminho mais seguro da cobardia, desistindo de fazer registos fotográficos para a eternidade.


 


Decido concentrar-me nos edifícios, e nas lixeiras, que são muitas – na esperança de através de um movimento repentino conseguir apanhar algum destes senhores antigos. Lá fui tirando algumas fotografias escondidas, mas foi difícil. Qualquer estranho que se passeie por ali não passa despercebido. A sociedade ortodoxa é extremamente fechada e controlada e é difícil misturar-se na multidão sem que eles se apercebam. É como andar vestido de vermelho num filme a preto e branco.


 


O passeio fez-me fome, mas não vejo ninguém a comer na rua, em público – provavelmente interdito! Descubro uma padaria, ela também antiga com tabuleiros ferrugentos e uns folhados com salsicha que me acenam tentadores. A massa de clientes ortodoxos move-se sombria, inidentificável de tabuleiro para tabuleiro, os seus dedos mexendo e remexendo em todos os bolinhos, pãezinhos, salgadinhos para escolher o melhor – se não tivesse tão esfomeada não comprava nada. Apresso o passo com o meu pacote morno tentando atingir a saída daquela vida antiga e sufocante, para devorar o folhado preparado por mãos ortodoxas – super kosher e delicioso! Mesmo assim, ainda tenho força e coragem para tirar as últimas fotografias à saída daquela rua, quando já estou no limiar do mundo moderno – sã e salva, deixando para trás aquele anacronismo frumm.


 


De notar que andei sempre de nariz no ar, observando tudo o que podia, sem ser repentinamente trazida à terra pelos resíduos deixados pelo melhor amigo do homem; não se vê nestas paragens cães fazendo os seus passeios diários e marcando território nem revolvendo o lixo em concorrência com os gatos – aparentemente os ditames da ortodoxia não permitem ter animais domésticos!»


 


Extracto de "Um Ano em Telavive" de Cristina Vogt-da Silva - na versão original da autora de 2008 - registered copyright  © June 2008 de Cristina Vogt-da Silva


 


Todos os direitos reservados de Cristina Vogt-da Silva


copyright © 2011 cristina vogt-da silva (pseudónimo de cristina dangerfield-vogt)


 


 


Articles on gender separation on public transportation in Israel/ Artigos sobre separação dos sexos nos transportes públicos em Israel!


 


http://www.haaretz.com/news/national/israeli-female-soldier-accosted-for-rebuffing-haredi-bus-segregation-1.404158

 


http://www.haaretz.com/news/national/israeli-female-soldier-accosted-for-rebuffing-haredi-bus-segregation-1.404158

 


http://www.haaretz.com/news/national/thousands-of-israelis-protest-gender-segregation-in-beit-shemesh-1.403916

 


http://www.aljazeera.com/programmes/insidestory/2011/12/2011122714115357269.html

 


http://www.youtube.com/watch?v=awtsGTfhCzA&feature=player_embedded#!

 


 

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